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18.5.18

Senhora - resenha

Oi, oi, oi, como vai você? Espero que esteja bem, assim como eu estou!
Hoje resolvi trazer uma resenha de José de Alencar, ele é um autor incrível e eu gosto de algumas de suas obras, nunca li tudo, confesso. rsrsrs 
Bom eu vou falar do romance Senhora, mas não vou trazer um resumo da obra, sim uma análise dela, de alguns fatos dela e espero que vocês curtam!



Amélia Camargo, a senhora que dá título ao romance, é uma jovem decidida, firme, bela, em um tempo em que mulheres não tinham direito de se governar, de serem senhoras de si, e mesmo assim, enfrentando dilemas morais, sonhos e pesadelos, consegue driblar grande parte de seus problemas e provar seu valor, conquistar seu lugar, e assim, como muitas grandes mulheres, esconder seu sofrimento e sorrir. 


A narrativa acompanha o crescimento, físico, emocional e amoroso, envolvendo a jovem e órfã Aurélia Camargo, e Fernando Seixas, objeto de sua afeição, que desperta na moça diferentes sentimentos, os quais ela desconhece, e não tem alguém para lhe orientar, de forma que os acontecimentos a cerca do romance e sua trajetória pessoal tem ares de dor, que talvez pudessem ter sido amenizados, com mais dialogo entre os protagonistas, ou mesmo uma orientação fraternal. 

Dinheiro, glamour, dor, mentiras, cousas cotidianas, em qualquer tempo, e qualquer status social, tem grandes dimensões e influencia na obra, o orgulho ferido das personagens e a repreensão de sentimentos acontecem a cada momento na narrativa, e apenas em momentos de solidão se permitem, nossos protagonistas, explorarem verdadeiramente tais sentimentos. 

O Romance “Senhora” data de 1875, é dividido em quatro partes, O Preço, Quitação, Posse e Resgate, não segue a ordem cronológica dos fatos, começa no tempo presente, mas retoma o passado, para justificar as atitudes dos personagens e explicar os acontecimentos ao leitor. Narrado em terceira pessoa, acompanha e idealiza a protagonista, Aurélia Camargo, e todo o desenvolvimento, social e psicológico desta. 


A obra apresenta distintas e variadas personagens, Aurélia Camargo, jovem sonhadora, órfã e pobre, que torna-se madura, poderosa, Fernando Seixas, jovem que tem um estilo de vida acima do que pode, e por isso comete erros, jovens apaixonados como Adelaide Amaral e Torquato Ribeiro, ou mesmo Emília Lemos e Pedro Camargo, a viúva resignada Firmina, o interesseiro Manuel Lemos, tio e tutor de Aurélia, o imponente e temido Lourenço Camargo, o fanfarrão Eduardo Lemos, entre outros. 

Fernando Rodrigues de Seixas, um jovem humilde, que apreciava a vida boemia, as roupas de classe, bem como sapatos, botica e companhias de pessoas distintas e de posição superior a sua na corte carioca. Ficou órfão de pai cedo, com uma irmã mais velha, Mariquinha, uma irmã mais nova, Nicota, e sua mãe, D. Camila, a mãe e as irmãs apresentam um enorme contraste ao irmão. Apesar de bem educadas, são a figura da simplicidade, do recato, mal saem de casa, ou tem contato com a sociedade, a mais nova já tem vinte anos e encontra-se solteira, para uma época em que moças casavam-se muito cedo, tem modos recatados, simples, assim como vestes que não seguem os padrões nem a moda da corte. 

O personagem de Fernando, causa orgulho na mãe a e nas irmãs, mas acaba por envergonha-se de ser visto com elas, e notar tamanho contraste de modos e vestes. 

Ele decide casar-se e conseguir bons casamentos e melhoras para a vida das senhoras, mas suas atuais circunstâncias não o permitem, ainda ele precisa de um casamento vantajoso, Adelaide, neste ponto da historia seria a melhor opção, mas como essa opção se desfaz, ele aceita a outra. Cada uma das ações do rapaz, por mais erradas e vendidas que parecem aos outros, visam não somente ganho pessoal, mas principalmente conforto para suas irmãs e sua mãe, pois suas ações acabaram por prejudica-las, tenta ele, então, repará-las, mesmo que não saibam do mal que ele as causou. 


Fernando apresenta certa inocência em seu atos, quer uma vida e uma posição melhor para si, e para sua família, seus atos demonstram essa ambição social, quando visto de seu ponto de vista, vistos por outrem, quando não conhecem seus motivos, pode ser julgado e condenado, como Aurélia o fez, por interesseiro, vendido, frívolo e mesquinho. Ele esbanja posses, utiliza sua educação, sua simpatia, como armas, para fazer contatos e conseguir essa ascensão social, mas isto quase custa a felicidade de sua irmã e a estabilidade de sua casa. Então vemos o amadurecimento do personagem, que abriu mão do amor, por Aurélia, para garantir isto a sua irmã Nicota. Vemos então, após o casamento e as humilhações sofridas por ele, por aquela que ele amava verdadeiramente, que ele tenta reparar-se, resigna-se com seu destino e o fato de não ser digno ao amor de Aurélia novamente, a tentativa de restaurar sua honra, sua liberdade, e reparar seus erros, podendo explicar-se a sua amada, e deixa-la livre para ser feliz. 

A apresentação de Aurélia da-se no inicio da narrativa, trazendo a personagem imponente e poderosa: 
Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela. 
Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. 
Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. 
Era rica e formosa. 
Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante. 
Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da Corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu -fulgor? 
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia. (ALENCAR, 1980, p.13) 

Aurélia era uma moça humilde, passando por inúmeros infortúnios durante sua juventude, perdeu o pai, que não pode ser presente, logo cedo, vê o irmão perecer precocemente, ajuda no que pode a mãe enferma, que só consegue pensar no desamparo em que se encontrará a menina quando ela se for. Rejeitada por sua família e seu sogro, D. Emília educa e cria os filhos, longe do seu amado Pedro, ela humilde, ele rico, ambos guiados pelo amor, mais do que as convenções sociais. 

Aurélia é inocente e sonhadora, inteligente, ajuda sua mãe na labuta, assim como a seu irmão. Devido a sua beleza a mãe espera um bom casamento para ela, como surge a oportunidade com Eduardo Abreu, mas ela recusa, já que seu coração pertence a outro. Mas o romance não dá certo, ele após propor casamento a jovem, acaba se comprometendo com outra. Ela continua devota e apaixonada, até saber que não foi amor que o afastou, e sim o dote, o que a deixa arrasada. Nesta época, seu avô, o temido Lourenço Camargo, pai de seu pai, a procura, pede perdão por ter impedido a felicidade de sua família e ter faltado a elas, como família. 

Outra tragédia na vida da menina, sua mãe falece, assim como seu avô, ela PE acolhida por uma parenta distante, D. Firmina Mascarenhas, uma viúva que a ampara e a acompanha. A menina então herda as riquezas do avô. Tornando-se assim rica, alem da beleza exuberante, é cobiçada agora pelo dote. 

A personagem demonstra uma emancipação, uma força e uma autonomia incomum para a época, onde jovens, normalmente eram educadas e criadas para serem esposas e submissas, vemos Aurélia dona de si, sem importar-se com a opinião alheia, o que o dinheiro, que passa a possuir, permite, assim não sendo de todo mal vista pela sociedade. 

A personagem é guiada pelo orgulho e por uma amor ferido, acaba então cometendo injurias contra aquele que ama, por não saber que o jovem tinha motivos para seus atos, acreditando apenas nas aparências, ele vendia-se pelo dote, a qualquer que fosse a pretensão. 

Os dois casam-se e passam a ter uma infelicidade imensurável, eles fingem felicidade perante a todos, um casal que exala beleza, inteligência, modos, educação e tem posses, mas que entre si reina ironias e ataques silenciosos, que fazem ambos sofrerem, mas sem notar, um no outro a dor que sentem. Cada ato, cada ataque, fere ao autor tanto quanto ao atingido, que em silencio se desesperam e sofrem. Por fim, são revelados os motivos, deixado de lado o orgulho e então a exaltação do amor e enfim a paz, decididos a esquecer este ano de casados, onde não eram os mesmo, ela movida pelo orgulho ferido e o amor abalado, ele movido pela culpa de erros e escolhas. 

"Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou um pouco fora de controle e às vezes difícil de lidar, mas se você não sabe lidar com o meu pior, então com certeza, você não merece o meu melhor!" (Marilyn Monroe) 


Podemos usar tal frase de Marilyn, uma mulher real e icônica para representar Aurélia Camargo. Mulheres amplamente diferentes, em épocas, atos, sonhos, desenhos e modos, mas de certo modo similares. Aurélia pode ser considerada uma feminista, a seu modo. Ela deseja governar a si e a seus bens, em uma sociedade que espera que a mesma seja submissa e recatada, como as outras moças. 

Os eventos e acontecimentos narrados na obra, apresentam-se com leveza e simplicidade, ao mesmo tempo que requinte e elegância. A historia, diz-se verídica, e talvez o seja. 

Se movermos os acontecimentos para os dias atuais, ainda assim, pode ser verídico. Pessoas são movidas por orgulhos, ambições, são enganadas por aparências, desconhecem razões e fazem julgamentos precipitados, que interferem em coisas em um efeito domino, uma coisa caindo a partir de outra, de modo a interferir na vida, não somente dos envolvidos diretamente, mas muitos outros. 

Trata dos sentimentos, e do sentimentos que podem surgir como consequências de outros, ciúmes, ambições, amores, mostra, que o afeto, o amor, não basta para unir duas pessoas, e mesmo unidas, talvez não valha nada, sem a confiança mutua e o dialogo. 

Para a época, casamentos eram tidos como tratados comerciais, casava-se pelos benefícios da união, não apenas para si, como para as famílias envolvidas, não por força dos sentimentos e afeições. Mostra dificuldade e problemas da vida cotidiana, enfrentados tanto na riqueza quanto na pobreza. Vemos a ostentação de bens e poder, o luxo, a exuberância, usados para mascarar problemas e situações, a bajulação e as conveniências. 


Além de tudo isso, temos diversas e ricas referencias. A melancolia de Seixas, remete a Byron. Cuja obra traz diversos personagens autodestrutivos e melancólicos, sendo referenciado como preferência do personagem. Cita Otávio Feuillet e compara Fernando, por ele mesmo ao protagonista, Camors. 

Além de trazer Shakespeare como autor favorito de Aurélia, que toma a preferência de Fernando, para agradar a esposa. Fazendo comparar novamente, Fernando ao personagem, desta vez de Otelo, da obra “Desdemona”, mas para Aurélia tal comparação não se valia. Não conhecendo as razões e aspirações do amado, pelo menos até este momento, critica ele, e o diminui a todo momento, sempre procurando humilha-lo e rebaixa-lo, por se sentir traída e ter o orgulho ferido. 

Também compara-se Seixas a Scharezade, esposa do sultão da obra “As mil e uma noites”, de Laurence Housman, que apesar de esposa do sultão, não era bem esposa deste, ate o fim das historias contadas. 

Não menos importante, vemos uma exaltação, já esperada, da literatura nacional, que era pouco valorizada na corte da época. 

A obra é do próprio Alencar, datada de 1854, que traz o mesmo autor de Lucíola, 1862, não sendo, todavia, continuação desta. 

Coberta de referencias, as quais são excelentes, para enriquecimento da obra e da narrativa, que cativa o leitor e progride simples, e encantadora. Senhora, ainda é uma das obras primas da literatura nacional e do autor. 

A forma como a historia se constrói, os problemas que aparecem e resolvem-se remete perfeitamente a vida real, José de Alencar da força a mulher, retratada não somente como submissa, inocente e frágil, não apenas neste romance, como em outros, podemos ver essa valorização do feminino, a força que podem adquirir. Em um tempo em que não se exigia da mulher, alem das prendas, simpatia, canto e danço, vemos uma personagem que cresce a cada dificuldade que enfrenta, sendo senhora de si, representando a segurança, que nem sempre possui. 


Personagens tão diversificados e ricos, quanto as situações, a obra caminha de forma natural, leve e encantadora. Entre o glamour da sociedade e a podridão que esta esconde, os anseios e sonhos dos jovens, e a realidade da vida adulta e as exigências que ela traz, temos uma obra completa, que não se demora em descrições, cenas que não sejam relevantes, tudo é na medida necessária para entendimento e cativação, alcançando uma perfeição literária, que mostra ao leitor o por que José de Alencar foi e ainda é tão aclamado e relevante em nossa literatura.

PS: Algumas das imagens usadas no post são da novela da rede Record "Essas Mulheres", que se baseou nos romances urbanos de Alencar, Senhora, Diva e Lucíola. 

Espero que tenham gostado do texto, beijos de luz e até!

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